Thursday, January 03, 2019

Alto



eis-me aqui diante da página branca,
elemento mágico capaz de transportar-me,
mau poeta, ao horror abismal do poema. 
por um instante, eu sou mallarmé, eu sou valéry.
mas se no início fora o caos, logo era terra também.
e sendo terra, haveria de ser poeta, mau poeta.








Tuesday, December 04, 2018

A Górgona de Brumadinho

Paralelismos santos, formas
geométricas que deixaram de
ter força para encontrar a força
do teu desejo. Impossível, enfim,
desejar-te um desejar. Para sempre
serás o suco celeste de teu peito, mais
de mil veias a complementar os ausentes
vazios do nosso leito. Por onde andarias tu
se soubesses o que sei? Por onde andarias tu
se soubesses que eu não sei? Vai, vamos embora
agora porque eu não quero parte nas quedas sem brio
que endereças aos teus. Ó vastas cabeleiras em serpenteio
prontas a mastigar os futuros petridestinatários de teus olhares.

Friday, October 26, 2018

Física - Parte IV

Augusto atravessou a rua Sagarana e se postou em frente ao número 57. Ao lado de um poste, alguém deixara um saco de lixo para ser recolhido naquela noite. Fios de alta tensão dividiam o cimo como se o céu fossem céus de um único céu, periferia do mundo. Entre o desejo hiperselênico de imagens perfeitas e o chorume acre da limpeza urbana, a calçada de cimento ecoava, um após o outro, os passos de Augusto. Os sons se entrelaçavam em ritmo de marcha, lembrando os gritos do povo ao descer o Faubourg Saint-Antoine: “sejamos terríveis”. Tu, que tantas vezes fora movida pela vingança, sabes bem o que se passa aqui. Certa vez me disseste que o único motor que move sem ser movido é o desejo de desagravo. Se não me falha a memória, completaste em tom metafísico: “vamos deixar essa história para depois”. Augusto ignorava nossos debates sobre filosofia primeira, assim como desconhecia a natureza daquilo que o levara até ali. Sabia que algo o havia dirigido, e que se tratava de uma força infinita, imutável, inesgotável. Dessabia, entretanto, seus contornos porque não nos é dado conhecer o corpo de nossos desejos. Augusto era um móbil da vingança. Secretamente, ele queria nosso mal em idêntica medida ao seu, isto é, em doses cavalares de anti-depressivos que anestesiam os afetos. Será que sabemos o que é morrer de amor sem nada sentir? Será que estaríamos preparados para a leve brisa da perda que nos guilhotina a cabeça? Questões muito difíceis que prefiro deixar sem resposta. Porque o que importa é a rua. A rua Sagarana, de onde segundas travessias são impossíveis. 

Friday, June 16, 2017

Física - Parte III



Nada acontecia, Augusto atravessava a rua. Não sentia nada, nada. Mas sentia saudades, no plural, de ti. Ocorre que a falta que tu fazias não era afetiva, passional ou amorosa, senão de ordem espacial. Augusto se dava conta de que o coração se embrulhava no lugar vazio do teu corpo ausente. Desapareceram os grandes continentes da vida a dois: a sala de jantar, por exemplo. Enganam-se, pensava ele, os que creem ser o espaço o infinito abstrato dos físicos modernos. Vinha à sua mente, talvez enviada por um anjo, a expressão decifrada "aquilo n'aonde que".  Isso era o espaço. Tua barriga, digamos, fora o lugar de Marília, nome lindo. Marília nasceu morta. Estranho como as palavras, pouco a pouco, nos trouxeram de volta a essa tristeza. Augusto atravessou a rua para que o mundo não se desfizesse.       



Friday, April 21, 2017

Física - Parte II

A noite caiu enquanto Augusto atravessava a rua. Nada de excepcional nesse fato. Afinal, pensou ele, tratava-se, em último caso, de uma tecnicalidade legal. Quando é que termina a tarde e começa a noite? No Brasil, às 18h anoitece. Ponto final. Se não vira bagunça. É preciso preservar um mínimo de segurança jurídica. Augusto se dizia alguém que prezava a objetividade. Era reconhecidamente, contudo, um sujeito dividido, meio em cima do muro: uma pessoa, digamos, crepuscular. Daí a grande dificuldade que encontrava naquele momento. Veja: às dezessete horas, cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos, pisava ele no asfalto em direção ao outro lado da rua Sagarana. Às dezoito horas, nós o vemos a meio caminho. E, segundo seu próprio parâmetro - que, não vamos negar, já encontrou algum respaldo jurisprudencial - anoitecera. Noitinha. Foi nesse instante que Augusto se deu conta de que aquele instante poderia se dividir em inumeráveis outros instantes cada vez menores. E que era dia e noite, dia-noite, noitedia. Lusco-fusco. Seu critério, então, revelou-se problemático, inaplicável. Sem conseguir se decidir se era dia ou noite e, aparentemente, sem saber a própria diferença entre noite e dia, Augusto continuou a atravessar a rua sem que nada de excepcional acontecesse.

Friday, March 31, 2017

Física - Parte I

Augusto pensava em nós naquele dia em que atravessou a rua sem que nada acontecesse. Um passo, outro passo. Das mil e uma noites que passara ao teu lado - ou os 32 meses, a depender do seu estado de espírito -, ele agora se lembrava muito pouco. Sobraram algumas imagens vagas, disformes, multicoloridas; alguns instantâneos. É verdade que ele se perguntou se tudo aquilo não havia sido um sonho. Não pelo caráter onírico ou fantástico de vossa relação, é claro, mas sim por aquela compressão total do tempo que se experimenta entre a vigília e o despertar. Uma sesta que talvez tenha durado muito ou muito pouco. Augusto te amou de verdade, não resta nenhuma dúvida. Amou, aliás, sabendo que era amado. Gostava de transar contigo às sextas-feiras, quando vós vos encontráveis. Aos domingos, menos: sentia-se tímido diante dos olhos terríveis das segundas-feiras. Quando tu disseste que ia embora porque tinha me encontrado, Augusto pensou que eu deveria gostar de transar aos domingos. Ou outro dia da semana. Essa reflexão algo machista o ocupara durante meses; e o ocupava, certamente, também nos instantes em que atravessou a rua sem que nada acontecesse.      

Wednesday, February 08, 2017

É fogo










O mundo cinza
lá fora.



Aqui dentro,
o mundo cinza
lá fora.





Tuesday, February 07, 2017

Mineração







O nome
que designa o lugar                                                                                                                  
que deve dar lugar
à destruição do lugar.
Origem aqui não só se busca,
senão se
escava
até verter em filões
uma fina camada mineral,
estria
paradoxal
de onde 
emerges.
Como Métis, Minas,
deiforme
em palavra de comando:
Gerai, gerai, gerai.





















Friday, August 26, 2016

Morguer










Escrever
para tr




                                            ansformar a t
                                                                                                           



                                                                                                                ela em poema.





 

















O De



vir poema dessa tela.
















T'ela
Tel'a
T'el'a









A tela
é o
ver
dadeiro
poe
ma

Wednesday, April 20, 2016

Desabafo

Desabafo.




Aqui do lado, agora, forte.
A palavra desagasalhada.
No início era o verbo, no hálito, no sopro brando e quente
de alguém que bravamente brande o próprio bafo.


Lázaro,


veni
foras





Sunday, April 10, 2016

Thursday, February 04, 2016

Querência

Polar aurora,
Eu te concedo,
Teu alvo dedo
Sidera a hora.

Não crês que, embora
O pulcro enredo,
És vão brinquedo
De vil senhora?

Apruma-te, ora,
Não tenha medo:
De saber ledo
Que Gaia chora!





















Terra.
        Reta.
O r que cai

como pedra,
como bago,
como esfera.

                                      Mil balangandãs e berloques que tombam
Pela Terra.






Do abdômen do feto
Para baixo,

Em protesto.

Sunday, October 19, 2014

São as que só desempenham essa função





Preposição é, pois, uma palavra invariável que tem por função ligar o complemento à palavra completada.










































Sem

































Wednesday, February 19, 2014

Sunday, January 26, 2014

Absorto


a partir do filme de Claude Chabrol
a partir - por que não? - de Cruz e Sousa










Vai, peregrina do caminho santo,
rouba os teus traços, ilumina teu chanto.
Sente a dormência impostar tua voz,
Pois tua clemência, enfim, é devinda algoz.


"Je vous salue, Marie, pleine de merde. Le fruit de vos entrailles est pourri."




Saturday, November 30, 2013

Can we get it? Hang on.

Quem tem
a tua
margem
Quem vem
à tua
margem
Quem sem
atua
margem
Quem trem
atual
margem
Quem bem
atura
margem
Quem, hem
Quem, hem
Quem mal
à margem
Quem mal
arma
gem



Friday, October 04, 2013

GRANDE, INCANDESCENTE ABÓBADA

com

enxame-de-astros-negros

que se revolve para fora e para longe:



na petrificada fronte de um carneiro

eu marco a fogo essa figura, entre

os chifres, aí dentro,

no canto das circunvoluções, a

moela do coagulado coraçãomar entumece.



Contra

o quê

ele não colide?  



O mundo é-na-distância, eu preciso carregar-te.




(Paul Celan, extraído de Atemwende e traduzido por Gabriel Rezende)
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