Augusto atravessou a rua Sagarana e se postou em frente ao número 57. Ao lado de um poste, alguém deixara um saco de lixo para ser recolhido naquela noite. Fios de alta tensão dividiam o cimo como se o céu fossem céus de um único céu, periferia do mundo. Entre o desejo hiperselênico de imagens perfeitas e o chorume acre da limpeza urbana, a calçada de cimento ecoava, um após o outro, os passos de Augusto. Os sons se entrelaçavam em ritmo de marcha, lembrando os gritos do povo ao descer o Faubourg Saint-Antoine: “sejamos terríveis”. Tu, que tantas vezes fora movida pela vingança, sabes bem o que se passa aqui. Certa vez me disseste que o único motor que move sem ser movido é o desejo de desagravo. Se não me falha a memória, completaste em tom metafísico: “vamos deixar essa história para depois”. Augusto ignorava nossos debates sobre filosofia primeira, assim como desconhecia a natureza daquilo que o levara até ali. Sabia que algo o havia dirigido, e que se tratava de uma força infinita, imutável, inesgotável. Dessabia, entretanto, seus contornos porque não nos é dado conhecer o corpo de nossos desejos. Augusto era um móbil da vingança. Secretamente, ele queria nosso mal em idêntica medida ao seu, isto é, em doses cavalares de anti-depressivos que anestesiam os afetos. Será que sabemos o que é morrer de amor sem nada sentir? Será que estaríamos preparados para a leve brisa da perda que nos guilhotina a cabeça? Questões muito difíceis que prefiro deixar sem resposta. Porque o que importa é a rua. A rua Sagarana, de onde segundas travessias são impossíveis.
Friday, October 26, 2018
Friday, June 16, 2017
Física - Parte III
Nada
acontecia, Augusto atravessava a rua. Não sentia nada, nada. Mas sentia
saudades, no plural, de ti. Ocorre que a falta que tu fazias não era afetiva, passional ou amorosa, senão de ordem espacial. Augusto se dava
conta de que o coração se embrulhava no lugar vazio do teu corpo ausente. Desapareceram os grandes continentes da vida a
dois: a sala de jantar, por exemplo.
Enganam-se, pensava ele, os que creem ser o espaço o infinito abstrato dos
físicos modernos. Vinha à sua mente, talvez enviada por um anjo, a expressão
decifrada "aquilo n'aonde que". Isso era o espaço. Tua barriga, digamos, fora o lugar de Marília, nome lindo. Marília nasceu morta. Estranho como as
palavras, pouco a pouco, nos trouxeram de volta a essa tristeza. Augusto atravessou a rua para que o mundo não se desfizesse.
Friday, April 21, 2017
Física - Parte II
A noite caiu enquanto Augusto atravessava a rua.
Nada de excepcional nesse fato. Afinal, pensou ele, tratava-se, em último caso,
de uma tecnicalidade legal. Quando é que termina a tarde e começa a noite? No
Brasil, às 18h anoitece. Ponto final. Se não vira bagunça. É preciso preservar
um mínimo de segurança jurídica. Augusto se dizia alguém que
prezava a objetividade. Era reconhecidamente, contudo, um sujeito dividido,
meio em cima do muro: uma pessoa, digamos, crepuscular. Daí a grande
dificuldade que encontrava naquele momento. Veja: às dezessete horas, cinquenta
e nove minutos e cinquenta e nove segundos, pisava ele no asfalto em direção ao
outro lado da rua Sagarana. Às dezoito horas, nós o vemos a meio caminho. E,
segundo seu próprio parâmetro - que, não vamos negar, já encontrou algum
respaldo jurisprudencial - anoitecera. Noitinha. Foi nesse instante que Augusto
se deu conta de que aquele instante poderia se dividir em inumeráveis outros
instantes cada vez menores. E que era dia e noite, dia-noite, noitedia. Lusco-fusco. Seu
critério, então, revelou-se problemático, inaplicável. Sem conseguir se decidir
se era dia ou noite e, aparentemente, sem saber a própria diferença entre noite e dia, Augusto continuou a atravessar a rua sem que nada de excepcional
acontecesse.
Friday, March 31, 2017
Física - Parte I
Augusto pensava em nós naquele dia em que atravessou
a rua sem que nada acontecesse. Um passo, outro passo. Das mil e uma noites que
passara ao teu lado - ou os 32 meses, a depender do seu estado de espírito -,
ele agora se lembrava muito pouco. Sobraram algumas imagens vagas, disformes,
multicoloridas; alguns instantâneos. É verdade que ele se perguntou se tudo
aquilo não havia sido um sonho. Não pelo caráter onírico ou fantástico de vossa relação, é claro, mas sim por aquela compressão total do tempo que se experimenta
entre a vigília e o despertar. Uma sesta que talvez tenha durado muito ou muito
pouco. Augusto te amou de verdade, não resta nenhuma dúvida. Amou, aliás,
sabendo que era amado. Gostava de transar contigo às sextas-feiras, quando vós
vos encontráveis. Aos domingos, menos: sentia-se tímido diante dos olhos
terríveis das segundas-feiras. Quando tu disseste que ia embora porque tinha me
encontrado, Augusto pensou que eu deveria gostar de transar aos domingos. Ou
outro dia da semana. Essa reflexão algo machista o ocupara durante meses; e o
ocupava, certamente, também nos instantes em que atravessou a rua sem que nada
acontecesse.
Wednesday, February 08, 2017
Tuesday, February 07, 2017
Mineração
O nome
que designa o lugar
que deve dar lugar
à destruição do lugar.
Origem aqui não só se busca,
senão se
escava
até verter em filões
uma fina camada mineral,
estria
paradoxal
de onde
emerges.
Como Métis, Minas,
deiforme
em palavra de comando:
Gerai, gerai, gerai.
Friday, August 26, 2016
Morguer
Escrever
para tr
ansformar a t
ela em poema.
O De
vir poema dessa tela.
T'ela
Tel'a
T'el'a
A tela
é o
ver
dadeiro
poe
ma
Sunday, August 21, 2016
Wednesday, April 20, 2016
Desabafo
Desabafo.
Aqui do lado, agora, forte.
A palavra desagasalhada.
No início era o verbo, no hálito, no sopro brando e quente
de alguém que bravamente brande o próprio bafo.
Aqui do lado, agora, forte.
A palavra desagasalhada.
No início era o verbo, no hálito, no sopro brando e quente
de alguém que bravamente brande o próprio bafo.
Lázaro,
veni
foras
Sunday, April 10, 2016
Thursday, February 04, 2016
Querência
Polar aurora,
Eu te concedo,
Teu alvo dedo
Sidera a hora.
Não crês que, embora
O pulcro enredo,
És vão brinquedo
De vil senhora?
Apruma-te, ora,
Não tenha medo:
De saber ledo
Que Gaia chora!
Terra.
Reta.
O r que cai
como pedra,
como bago,
como esfera.
Mil
balangandãs e berloques que tombam
Pela Terra.
Do abdômen do feto
Para baixo,
Em protesto.
Sunday, October 19, 2014
São as que só desempenham essa função
Preposição é, pois, uma palavra invariável que tem por função ligar o complemento à palavra completada.
Sem
Wednesday, July 02, 2014
Monday, May 05, 2014
Sunday, January 26, 2014
Absorto
a partir do filme de Claude Chabrol
a partir - por que não? - de Cruz e Sousa
Vai, peregrina do caminho santo,
rouba os teus traços, ilumina teu chanto.
Sente a dormência impostar tua voz,
Pois tua clemência, enfim, é devinda algoz.
"Je vous salue, Marie, pleine de merde. Le fruit de vos entrailles est pourri."
Saturday, November 30, 2013
Can we get it? Hang on.
Quem tem
a tua
margem
Quem vem
à tua
margem
Quem sem
atua
margem
Quem trem
atual
margem
Quem bem
atura
margem
Quem, hem
Quem, hem
Quem mal
à margem
Quem mal
arma
gem
a tua
margem
Quem vem
à tua
margem
Quem sem
atua
margem
Quem trem
atual
margem
Quem bem
atura
margem
Quem, hem
Quem, hem
Quem mal
à margem
Quem mal
arma
gem
Friday, October 04, 2013
GRANDE, INCANDESCENTE ABÓBADA
com
enxame-de-astros-negros
que se revolve para fora e para longe:
na petrificada fronte de um carneiro
eu marco a fogo essa figura, entre
os chifres, aí dentro,
no canto das circunvoluções, a
moela do coagulado coraçãomar entumece.
Contra
o quê
ele não colide?
O mundo é-na-distância, eu preciso carregar-te.
(Paul Celan, extraído de Atemwende e traduzido por Gabriel
Rezende)
Monday, July 22, 2013
Par
A par a par:
De par em par,
sempre à parte
de minha parte.
Como se toda distância te guardasse
Num prefixo “dis-”.
Rua Laranjal, 362.
Endereço.
Endereço.
Thursday, July 18, 2013
Micropoema B ou "É preciso muito esforço para se tornar uma poeta" ou "Devir poeta do poeta"
¬Ɐx P(x)
x sendo poeta
P sendo poeta
Nicht alle Dichter sind Dichterinen
Subscribe to:
Posts (Atom)